Se este é - e acredito que é - um espaço para promoção da cultura polaca para os falantes de Português, então é necessário que se escreva aqui sobre algumas personalidades das artes e letras polacas - as outras áreas nunca me interessaram por aí além.
Começo com Witold Gombrowicz apenas porque estou a ler um livro dele. Gombrowicz é um escritor algo diferente dos restantes escritores polacos. Não tem absolutamente nada a ver com Sienkiewicz, com Miłosz ou com qualquer outro vulto das letras polacas. Gombrowicz é, por assim dizer, uma ruptura.
Gombrowicz quase nunca viveu na Polónia. Nasceu em 1904, formou-se em Direito, viveu uns tempos em Paris, voltou à Polónia e, no momento em que rebenta a Segunda Guerra Mundial, encontra-se em Buenos Aires: sem dinheiro e sem falar espanhol. Ficou na Argentina até muito depois da Guerra, trabalhando no Banco Polaco (PKO). Quando voltou para a Europa passou um ano em Berlim e depois foi para França, acabando por se fixar em Vence, no sul do país, onde morreu em 1969.
Gombrowicz, muito embora escrevesse em polaco, foi um autor quase desconhecido na Polónia até aos anos 70, já que ele não autorizou a publicação da sua obra no seu país natal até que fosse levantada a proibição ao Diário (no qual Gombrowicz descrevia os ataques de que foi vítima pelas autoridades polacas).
As sua obras mais importantes são Ferdydurke (1937), o romance que lhe trouxe o reconhecimento, Pornografia (1960) e Cosmos (1967), estes dois últimos publicados em Portugal.
O estilo de Gombrowicz caracteriza-se por longas análises psicológicas e um certo absurdo aqui e além. Gombrowicz explora o confronto entre jovens (imaturos e inexperientes) e velhos (transformados pela vida), a sociedade rural polaca e as máscaras e personagens que as pessoas compõem diante dos que as rodeiam. Há também em Gombrowicz uma certa obsessão com a forma, com o gesto, com o significado dos actos, com a relação entre os objectos, com o que de propositado há em cada acaso… nada é de facto um acaso.
Os livros de Gombrowicz disponíveis em Portugal são Pornografia (Relógio d’Água, trad: Aníbal Fernandes) e Cosmos (Vega, trad: Luíza Neto Jorge). As traduções foram feitas a partir das edições francesas. A tradução de Cosmos não me pareceu nada mal (em termos de fluidez e de funcionamento do texto, claro). A de Pornografia tem algumas falhas (traduzir pierogi como «ravioli» é o ponto alto). São dois livros que se assemelham muito, havendo certos pontos em que se tocam. Foram, de resto, escritos praticamente na mesma altura (anos 60), muito longe do irónico Ferdydurke, que revelou Gombrowicz como escritor.
Li algures que Gombrowicz é provavelmente o mais importante romancista do século XX de que a maioria dos leitores ocidentais nunca ouviu falar. Isto é bem capaz de ser verdade. E é-o absolutamente em Portugal. No Brasil não exactamente. Lá está publicado Ferdydurke… e traduzido directamente de polaco. Uma lacuna na edição em Portugal, que espero que seja resolvida…