Faltam poucos dias para se completar o 4.º aniversário da Polónia na União Europeia. A minha curiosidade levou-me a rebuscar o meu arquivo e a desencantar uma revista – a saudosa Grande Reportagem – dedicada ao tema. Como quase todas as publicações da altura, também a Grande Reportagem se lançou nos retratos dos 10 novos países. A Polónia lá está, com uma reportagem inteirinha. O que diziam sobre a Polónia há 4 anos?
O título da reportagem não deixa adivinhar nada de bom: “A Terra dos Animais”. Vemos uma foto de duas páginas nas quais surge uma cabeça com longos cabelos louros e, ao fundo, um cavalo polaco (konik polski = cavalinho polaco) a pastar. O título explica-se dentro de momentos.
A reportagem não é feita em Varsóvia ou em Cracóvia. É a Zwierzyniec (zwierzę=animal; daí o título), uma cidadezinha perto de Lublin e não muito longe da fronteira com a Ucrânia, que o jornalista vai. O que há em Zwierzyniec? Há Maria Dziadosz, uma septuagenária que perdeu toda a família nos campos de concentração e que agora perdeu também o resto graças à emigração. O resto excepto o filho mais novo, a razão pela qual não foi visitar os outros filhos à Austrália: a embaixada em Varsóvia não concedeu visto ao filho de Maria, portador de trissomia 21. Perto de Zwierzyniec fica Zamość e o Parque Nacional de Roztocze, um dos 23 Parques Nacionais da Polónia (Portugal tem um: o da Peneda-Gerês). Há apostas no turismo, mas há os problemas do costume: costume lá e costume cá. Há a preocupação com a concorrência que a União Europeia vai trazer. A cervejeira Zwirzyniec foi comprada pelos holandeses da Heineken em 2002. O director de qualidade teme a concorrência dos Checos e dos Alemães, onde os custos de produção são cerca de um terço inferiores aos polacos: «o método é tradicional, a maquinaria é velha». A fábrica de mobílias foi comprada por alemães em 1995. Maciej trabalha lá e ganha cerca de 200 euros por mês. Tem uma plantação privada de cannabis, que, diz a revista, «fará dele porventura um dos principais agricultores da região». A reportagem é complementada com relatos do contrabando que é habitual na fronteira com a Ucrânia. Em 2004 ergueu-se ali como que um novo fosso. Agora já não estão juntos do lado de lá da cortina de ferro. Os ucranianos estão fora da UE e os polacos dentro. Quem diz os ucranianos diz os bielorrussos.
Fala-se ainda da intensa emigração polaca. Fala-se do desemprego endémico e dos baixos salários e fala-se do esforço em esticá-los durante um mês inteiro. O discurso é-me familiar. Desde 2004, a emigração… aumentou. Desta fez foram o Reino Unido e a Irlanda os destinos. Em Zwierzyniec houve apenas 10 agricultores que se candidataram a fundos comunitários. Diz Tadeusz Halasa: «A minha mulher frequentou todos os cursos e aprendeu como conseguir dinheiro da União Europeia». Tem uma microempresa e cria cavalos.
Desde então muito se tem falado dos fundos comunitários. Lá como cá. A Polónia foi, devido à sua dimensão, o grande ganhador dos milhões de Bruxelas no pacote 2007-2013 (lembram-se do «Yes! Yes! Yes!» do ex-primeiro ministro Marcinkiewicz?). Entretanto, o Campeonato da Europa de Futebol 2012 vem dar um empurrãozinho: fala-se de auto-estradas, fala-se de uma nova linha de metro para Varsóvia (ainda hoje foi aberta uma nova estação na linha (a única) que atravessa a cidade de norte a sul), fala-se de inúmeros investimentos… Quatro anos depois, olho as fotografias saloias que ilustram a reportagem e não consigo descobrir lá a Polónia que conheço. Mas algo está lá. Talvez subjacente a tudo aquilo esteja a Polónia que eu conheço e talvez mesmo o Portugal que me rodeia, numa mistura improvável. Afinal de contas, apesar de separados por 3000 quilómetros os Portugueses e os Polacos não são assim tão diferentes…
